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"A consciência é uma, porém, se manifesta diversificadamente: de uma forma restrita, na vida normal, pelo fato de ser limitada pelo organismo" Léon Denis.

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A Lição da Humildade

Por Cristiane Lenzi Beira

A Lição da Humildade

As filosofias orientais utilizam a expressão Ilusão de Maya para se referirem à dificuldade que o ser humano tem em compreender claramente sua realidade e a realidade do mundo, direcionando-se na vida, por consequência, a partir de um ponto de vista ilusório. É uma referência, talvez, ao sentimento intuitivo que nos faz perceber que a realidade está além do que nossos olhos são capazes de enxergar. O texto hindu constante na obra Bhagavad Gita (II-69) nos alerta a respeito dessa percepção limitada  e distorcida:

Aquilo que à gente do mundo sensorial parece ser real e verdadeiro, para o sábio é ilusão: e aquilo que a maior parte dos homens julga ser irreal e não existente, o sábio conhece como o único que é real e existente.

O conhecimento védico da Índia apresenta, de forma clara, a contradição comumente existente entre a visão material e a visão espiritual. Ao reencarnar na Terra, nos esquecemos de nossas vidas passadas e de nossa essência espiritual, e, por isso, não é raro nos deixarmos levar pelas ilusões do mundo. Os orientais se referem a essa armadilha – não reconhecer a realidade e viver de forma ilusória, como sucumbir ao Véu de Maya. Deixamo-nos levar pelos convites dos prazeres e das facilidades, desatentos às prioridades espirituais.

Os indivíduos que conseguem ter a consciência desperta o suficiente para levarem em consideração a existência do Véu de Maya, criam, para si mesmos, oportunidades de se aproximarem da verdade. No entanto, ainda assim, ao buscarem as respostas para o que existe além do Véu de Maya, deparam-se com outra dificuldade: qual caminho seguir ou qual instrumento utilizar.

Ao longo da História da Humanidade, diversas mentes brilhantes buscaram compreender melhor a vida e o mundo, por meio de inúmeros caminhos e abordagens.

Houve uma época em que os grandes filósofos gregos entenderam que a estética seria um caminho muito interessante para compreender e explicar a realidade. Acreditavam que a estética observada na natureza seria o elemento norteador em direção à verdade.

Estética1 (do grego aisthésis: percepção, sensação, sensibilidade) é um ramo da filosofia que tem por objetivo o estudo da natureza da beleza e dos fundamentos da arte.  Platão dissociava o belo do mundo sensível, e sua existência ficava confinada ao mundo das ideias, associando-se ao bem, à verdade, ao imutável e à perfeição.

Aristóteles, discípulo de Platão, ao contrário de seu mestre, concebeu o belo a partir da realidade sensível, deixando este de ser algo abstrato para se tornar concreto – o belo materializa-se. A beleza no pensamento aristotélico já não era imutável, nem eterna, podendo evoluir. Com Aristóteles abrem-se as perspectivas dos critérios de julgamento do fazer artístico, conferindo ao artista a possibilidade de individuação. O belo aristotélico seguirá critérios de simetria, composição, ordenação, proposição, equilíbrio.

Nesse período, as artes eram um dos ramos do conhecimento humano mais valorizados. A estética era a referência onde se apoiavam os pontos de vista, a partir do qual se buscavam explicações e para onde se direcionavam os pensamentos. Os filósofos estavam todos voltados aos aspectos de simetria, beleza e harmonia.

Para se defender uma ideia ou expressar uma opinião, naquela época, a maneira mais eficiente de se ter sucesso, ou seja, de ser ouvido e respeitado, seria utilizando argumentos fundamentados na estética.

A estética falava à alma, ao coração, ao sentimento. Evocava sensações e despertava os sentidos. Lidava com símbolos, com representações, que, por sua vez, poderiam produzir conclusões. Esses eram os fenômenos observados e valorizados, indicadores de que se estaria aproximando ou não do que se buscava. O que era belo, bom, simétrico, proporcional, certamente, estaria mais próximo da verdade.

Podemos imaginar como seria visto um indivíduo que, naquela conjuntura, se dispusesse a defender a harmonia gerada pelo caos, ou se arriscasse a opinar a respeito da beleza constante na assimetria. Certamente suas ideias seriam repelidas e confrontadas.

Outra corrente de pensamento, também muito discutida e vivenciada pelos filósofos gregos, que pretendia analisar o mundo, encontrando explicações e se aproximando da verdade, era a ética.

Em seu sentido mais abrangente, o termo “ética”2 implicaria num exame dos hábitos da espécie humana e do seu caráter em geral, e envolveria até mesmo uma descrição ou História dos hábitos humanos em sociedades específicas e em diferentes épocas.  Restringe-se ao campo particular do caráter e da conduta humana à medida que esses estão relacionados a certos princípios – comumente chamados de “princípios morais“. As pessoas geralmente caracterizam a própria conduta e a de outras pessoas empregando adjetivos como “bom – mau”, “certo – errado”. 

Essa vertente dominou o pensamento humano por muitos séculos e acabou se infiltrando nas religiões, que se autodenominaram como propagadoras da ética. Muitas doutrinas religiosas elaboraram documentos com máximas éticas e vigiaram as condutas, em atitudes moralistas. Deixaram de representar o que deveriam – a reconexão com o sagrado – para se especializarem em leis, regras e punições.

Em ambientes onde predomina essa forma de explicar o mundo, utilizando uma análise baseada somente no que é ético ou não, comumente se observam abusos e fanatismos, uma vez que a ética acaba sendo personalizada ou distorcida, ou seja, pautada em determinados pontos de vista, muito subjetivos.

E há, também, uma terceira forma de observar o mundo e a vida, muito utilizada pela sociedade contemporânea, que se refere ao caminho científico. É o caminho trilhado pelos que se descrevem como realistas, porque acreditam que a realidade somente pode ser comprovada por meio de fatos, ou seja, aquilo cuja existência pode ser constatada de modo indiscutível, por meios empíricos.

Os que se sentem confortáveis, utilizando a lógica e a razão, apoiadas em fatos, para explicarem o mundo e a vida, acreditam-se, comumente, como únicos detentores da verdade, excluindo a veracidade de quaisquer outros pontos de vista. O que existe é somente aquilo que pode ser observado por meio de métodos científicos, independente de aspectos éticos ou estéticos.

Assim sendo, pensando a respeito das questões existenciais, imaginemos como seria um debate entre um seguidor da escola da estética, outro da ética e um terceiro, da razão, caso estivessem encantados com seus pontos de vista e cegos para outras formas de pensar. Certamente não acabaria bem o encontro e pouco benefício seria produzido.

Infelizmente, arriscamo-nos a afirmar que a tolerância com relação à forma de observar, entender e explicar a vida de cada um de nós vem sendo raramente vivenciada. É como se cada um desejasse que suas lentes – da estética, da ética, da razão ou de qualquer outro ponto de vista – fossem as únicas verdadeiras, sem se darem conta de que poderiam enriquecer e ampliar a consciência, caso fossem humildes o suficiente para ouvir o que o outro tem a dizer, de acordo com sua forma peculiar e particular de apresentar.

Insistimos em mudar, consertar e converter o outro, afirmando, com total confiança, que detemos a verdade em nossas mãos. Apontamos, acusamos e criticamos, ofendidos com os que optaram por trilhar caminhos diferentes dos nossos, crentes de que somente existe uma única vereda em direção à compreensão de vida. Estamos cheios de certezas e distantes da verdade.

Por outro lado, quanta amplitude de consciência geraríamos, caso nos dispuséssemos a compreender o outro, sem julgar seu ponto de vista pelas nossas lentes intransigentes e inflexíveis e se fôssemos capazes de penetrar-lhe a alma, abertos para assimilar o que as palavras muitas vezes não são capazes de dizer. Certamente, na época em que Jesus viveu, somente os que se dispuseram a conhecer o Mestre de Nazaré, sem visão pré-concebida, buscando a mensagem contida nos conceitos, nas parábolas e nas recomendações oferecidas é que realmente aproveitaram o convite e se transformaram. Os draconianos intransigentes, no entanto, provavelmente deixaram passar a oportunidade, mais preocupados em criticá-lO, por meio de sua ótica estreita.

Conta-se que, no mito de Hermes, o deus grego responsável por transportar as almas para o mundo avernal, de Hades, percebeu, após muito tempo desempenhando a tarefa de psicopompo, que as almas eram muito pesadas porque morriam com muitos conflitos não resolvidos. Por isso a recomendação de Santo Agostinho3, a respeito da importância do autoconhecimento:

Fazei o que eu fazia, quando vivi na Terra: ao fim do dia, interrogava a minha consciência, passava revista ao que fizera e perguntava a mim mesmo se não faltara a algum dever, se ninguém tivera motivo para de mim se queixar. Foi assim que cheguei a me conhecer e a ver o que em mim precisava de reforma.

Mas essa revista interior proposta por Santo Agostinho requer um mínimo de humildade, pois que o orgulho nos leva a desconsiderar as próprias fragilidades enxergando-as nos outros, em mecanismos psicológicos de projeção.

O senso comum define a humildade como não se sentir superior aos outros, reconhecendo as próprias fragilidades e imperfeições, o que representa corretamente o conceito. Mas ao ser traduzida em hábitos, atitudes e comportamentos, nem sempre a essência da virtude é vivenciada.

É comum a tentativa de se esconder o orgulho, apresentando-se exemplos de comportamento do tipo: tomar o último assento, vestir-se de forma simples, conviver em meios desprovidos de riquezas…

É verdade que tais situações podem, perfeitamente, corresponder à vivência da humildade, porém não podemos garantir que sejam realmente frutos da presença dessa virtude, pois é comum que, em tais circunstâncias, a humildade não passe de papel representado pelo orgulho disfarçado, em atitude de autoengano.

Kardec também aponta a presença das falsas virtudes, aquelas desempenhadas de forma robotizada e teatral4:

Sem a humildade, apenas vos adornais de virtudes que não possuís, como se trouxésseis um vestuário para ocultar as deformidades do vosso corpo..

A verdadeira aliança com a humildade é aquela que nasce do real compromisso da alma, que reconhece o próprio lugar e tem consciência das próprias imperfeições.

A postura do humilde é aquela em que ao se colocar diante da vida, relaciona-se com ela na forma dialética. Diferente do orgulho, que, por sua vez, vive sempre por meio de monólogos, pois que se sente detentor da verdade.

O humilde encara a vida, disciplinando-se para ouvir a mensagem embutida nos acontecimentos, vê os chamamentos constantes nas dores e sofrimentos e compreende os ensinamentos trazidos pelas decepções.

Ouvir o que a vida tem a dizer, asserenar a mente e as ansiedades para compreender as mensagens que o Universo traz e aproveitar as lições que ajudam a fortalecer a humildade é atitude inteligente.

Ao invés de querer, falar, explicar, saber, comandar, como orgulhoso, dispor-se a ouvir, aceitar, aprender e a se entregar. Eis a verdadeira vivência da humildade.

Ao sentir-se, verdadeiramente, que se tem mais a aprender do que a ensinar, a ouvir do que a falar e a aceitar do que a controlar, é, finalmente, momento em que a humildade desperta no mundo íntimo.

Daí, sim, a pessoa se sentirá parte importante da vida, mas com real dimensão do Universo e de Deus, tendo superado o Véu de Maya.

 

Referências:

1 https://pt.wikipedia.org/wiki/Estética.

2 https://pt.wikipedia.org/wiki/Ética.

3 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974. pt. 3, cap. XII, q. 919a.

4 ______. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. VII, item 11.

 

Fonte: https://www.mundoespirita.com.br

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