A humanidade atravessa um período singular da sua história. Nunca tivemos tantos recursos, tanto acesso à informação, tanta capacidade de comunicação e produção, e, ao mesmo tempo, nunca estivemos tão distantes de nós mesmos. O avanço tecnológico corre em ritmo acelerado, acompanhado de profundas transformações sociais e culturais. Contudo, nesse cenário de conquistas materiais, vemos crescer também a exaltação do “eu”, a busca desenfreada por autoafirmação e a valorização excessiva da aparência. É o século do ego.
Sob uma ótica espiritual – especialmente à luz do Espiritismo – o predomínio do ego não é um fenômeno novo, mas o resultado de uma longa trajetória evolutiva, ainda marcada pelo primitivismo moral. O espírito humano, em sua caminhada milenar, desenvolveu instintos de defesa, sobrevivência, competição e posse. Esses mecanismos foram úteis em etapas anteriores da evolução, quando a luta pela vida era a preocupação central. Porém, com o surgimento da razão, da sensibilidade e da consciência moral, esses impulsos deveriam gradualmente dar lugar a uma ética superior, fundada no amor, na solidariedade e na convivência harmoniosa.
Entretanto, como sabemos, essa transição não ocorre rapidamente. O planeta Terra, ainda classificado pelos Espíritos como um mundo de provas e expiações, é um ambiente onde predomina a luta entre o velho e o novo homem interior. De um lado, a herança do egoísmo, do orgulho, da violência e da competitividade; de outro, o chamado divino para a fraternidade, a renúncia e o crescimento espiritual. Essa tensão entre forças opostas caracteriza o estágio atual da humanidade.
O Ego na Visão Espírita
Para o Espiritismo, o ego não é visto como algo maligno em si mesmo. Ele representa, antes, um instrumento de individuação, necessário para o espírito se reconhecer como ser único, responsável por sua própria evolução. O problema não está no ego em si, mas no predomínio desordenado de suas manifestações inferiores – orgulho, vaidade, desejo de domínio, necessidade de aprovação, apego aos bens e às ilusões da matéria.
O ego, nesse sentido, é o conjunto das ilusões da personalidade transitória, construída ao longo das encarnações. Ele se alimenta da separatividade: “eu” contra o “outro”, “eu” acima do “outro”, “eu” sem o “outro”. É, como dizem os Espíritos, a raiz do egoísmo, “o maior de todos os vícios”, pois dele derivam todas as outras imperfeições humanas. Jesus advertiu inúmeras vezes sobre esse mecanismo, quando chamou-nos a renunciar a nós mesmos, a tomar a própria cruz e segui-Lo. Essa renúncia não é destruição da identidade, mas a libertação do tirano interior que aprisiona o ser às ilusões temporárias.
É por isso que, mesmo em ambientes religiosos, encontramos com frequência comportamentos egóicos disfarçados de virtude. Muitas vezes, o indivíduo realiza ações de caridade com o desejo de ser visto, elogiado ou reconhecido. Pratica a humildade externamente, mas alimenta internamente a necessidade de aprovação. Adota discursos de fé, mas mantém atitudes de hostilidade, crítica ou superioridade moral. Essa aparência de virtude é um dos disfarces mais sutis do ego. Ele aprende a vestir-se de bondade, enquanto preserva, intacto, seu desejo de ser o centro.
O Compromisso Moral do Cristo: O Antídoto ao Ego
Quando Jesus trouxe a Boa Nova, apresentou ao mundo um caminho completamente oposto ao da exaltação egoica. Seu Evangelho é uma pedagogia da transformação interior. Nele encontramos não apenas ensinamentos morais, mas uma metodologia de cura da alma – e essa cura passa pelo enfraquecimento do ego e pela revelação do Espírito.
O Cristo, ao propor o amor incondicional, o perdão, a renúncia, o serviço ao próximo e a humildade genuína, aponta para um novo patamar de consciência. Essas atitudes não são meras virtudes sociais, mas processos de libertação psicológica. Cada ato de amor desinteressado dissolve uma parcela da rigidez do ego. Cada gesto de perdão desarma os mecanismos de defesa e revide. Cada exercício de compreensão dilui as fronteiras da separatividade. Assim, as vibrações inferiores cedem espaço à luz da alma.
Por isso, o Evangelho é tão combatido em todas as épocas. Ele contraria não apenas as estruturas sociais, mas sobretudo as estruturas internas do ego. Na época de Jesus, os poderes políticos e religiosos viam-no como ameaça. Hoje, o combate continua, disfarçado de debates ideológicos, ataques nas redes sociais, desdém intelectual ou manipulações emocionais. O Cristo, no entanto, permanece como referência universal, porque toca no mais profundo da realidade espiritual humana: somos chamados a ser mais do que aparentamos.
O Transitar da Humanidade para um Novo Mundo
A literatura espírita ensina que a Terra está caminhando para uma fase de regeneração. Esse processo não é automático, nem ocorre por decreto divino. Ele depende da renovação moral de seus habitantes. Um mundo regenerado só pode ser habitado por espíritos que já superaram, em grande parte, o império do ego. Não haverá espaço para ódio, orgulho, vaidade e ambição desmedida. A paz verdadeira, aquela que brota da consciência pacificada, só pode existir quando o ego deixa de ser o governante interior.
Por isso os Espíritos falam sobre a separação natural entre aqueles que já alcançaram condições vibratórias compatíveis com o novo ciclo e aqueles que ainda permanecem presos às paixões inferiores. A lei de afinidade espiritual, que é universal, fará com que cada um encontre seu lugar adequado. Não se trata de punição, mas de sintonia vibratória. Os que perseverarem no egoísmo e na violência moral não poderão permanecer onde predominam valores como fraternidade, cooperação e amor.
A transição planetária é, portanto, um convite à reforma íntima. Não se trata apenas de esperar um mundo melhor, mas de trabalhar – agora – para que esse mundo se construa dentro de nós. O planeta se transforma quando as consciências se transformam. E cada vitória íntima sobre o orgulho, cada renúncia ao ressentimento, cada ato de amor sincero é uma pedra colocada na construção desse novo tempo.
Conclusão: O Ego no Seu Devido Lugar
O século do ego evidencia um momento crítico da evolução humana. Vivemos a exacerbação da individualidade, mas também os sinais de uma nova consciência emergente. A espiritualidade superior nos orienta a compreender o ego não como inimigo, mas como parte da jornada. Ele precisa ser educado, sublimado, colocado ao serviço da alma imortal.
Quando finalmente reconhecermos que somos espíritos eternos, viajores da luz, destinados à perfeição, compreenderemos que nada do que o ego exige tem valor real. O verdadeiro tesouro está no amor, na paz interior, na comunhão universal com os outros seres.
Somente quando a humanidade substituir o egoísmo pela fraternidade, o orgulho pela simplicidade, a violência pela compreensão, o mundo de regeneração surgirá plenamente. E cada um de nós, na intimidade do próprio coração, é chamado a ser semente desse novo amanhecer.
Prof. Wagner Ideali
